Fauna News

Buscar

banner_20-08-2014.gif

Quarta-Feira, 29 DE Outubro DE 2014

ARTIGO DO LEITOR: Estradas, um mal necessário que devasta nossa biodiversidade

Antonio, à direita, com o biólogo Marco Sena durante a viagemUma vez por outra, o Fauna News publica artigos escritos por especialistas e por seus leitores. O site existe exatamente para isso: provocar o fim da inércia, motivar o diálogo e criar discussão. O biólogo Antonio Bordignon entrou em contato conosco com o desejo de relatar um pouco dos problemas envolvendo animais silvestres que presenciou, junto com os amigos e também biólogos Marco Sena e Jani Pereira, durante uma viagem entre São Paulo (SP) e Buritis (MG) em junho deste ano.

Foram cerca de 2.320 quilômetros (ida e volta), em que percorreu, dentre outras, as rodovias MG-190, MG-188 e MG-400. O relato de Bordignon vai ao encontro de muitos pontos de vista defendidos e comentados pelo Fauna News.

Boa leitura!


Estradas, um mal necessário que devasta nossa biodiversidade

Antes de iniciar o texto, permitam-me me apresentar. Me chamo Antonio Bordignon, tenho 34 anos, nasci e moro em São Paulo (SP), sou biólogo/herpetólogo e fotografo a vida selvagem desde 2000.

Que as estradas nos beneficiam de maneira significativa, não restam dúvidas. Mas e a nossa biodiversidade? Qual o real impacto que as estradas causam nos principais ecossistemas que elas cortam?

Segundo o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas, (CBEE/UFLA), cerca de 500 milhões de vertebrados morrem todos os anos nas estradas brasileiras. Estes números representam um massacre que reflete drasticamente nas populações das áreas mais afetadas.

Mãe e filhote de tamanduás-bandeira mortos por atropelamento em estrada mineira

Em uma recente viagem até Buritis (MG), na companhia de um casal de amigos e também biólogos, pudemos conferir o descaso com nossa fauna em áreas de grande importância para conservação das espécies. Ao cruzar grandes fisionomias do bioma Cerrado, o impacto das rodovias sobre a fauna deixa evidente o descaso político em relação a esta questão de urgência e extrema importância. Durante muitos quilômetros, observei que, apesar de relativamente bem conservadas as paisagens, as estradas interferem de maneira relevante no deslocamento dos animais. O asfalto está em boas condições e existem sinalizações sobre a fauna. Será suficiente?

Em um trecho de aproximadamente 490 quilômetros, entre os municípios de Monte Carmelo e Buritis, foram contabilizados mais de 60 animais atropelados, de diferentes espécies. Ou seja, uma média de um animal a cada oito quilômetros. Vale lembrar que minha passagem foi rápida e esses atropelamentos devem atingir um número maior ao longo do ano.

Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous): mais um dentre os 475 milhões de animais que morrem todos os anos nas estradas brasileirasEntre as espécies, estavam os tamanduás-bandeira (incluindo uma mãe e seu filhote), cachorros-do-mato, gambás, tatus, seriemas, serpentes, furões, ouriços e quatis.

Acredito que na época em que as rodovias mais antigas foram projetadas e construídas, a preocupação com a biodiversidade era ínfima ou praticamente zero. Provavelmente acreditaram que a sinalização seria o suficiente para evitar acidentes com os animais que, eventualmente, cruzassem as pistas. Grande erro! Investiram a maior parte dos recursos no asfalto, apenas, deixando de lado as importantes passagens subterrâneas para os animais cruzarem as estradas em segurança. E estas medidas não beneficiam apenas os animais, mas também os usuários das rodovias, evitando acidentes de trânsito.

Não seria o momento de nossas autoridades políticas demonstrarem interesse neste importante “detalhe” e revisarem os projetos, tanto das mais antigas quanto das novas rodovias?

Postado por Dimas Marques às 00:00

Deixe seu comentário

comentários por Disqus

Artigos relacionados