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Quinta-Feira, 27 DE Outubro DE 2016

Não precisa colidir para matar

Tico-tico-do-campo (Ammodramus humeralis) encontrado morto no acostamento da BR-101, RS, em uma região com predominância de cultivo de arroz

Por Larissa Oliveira Gonçalves
Bióloga e mestre em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É doutoranda em Ecologia na mesma universidade, trabalhando junto ao Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias (NERF-UFRGS)
estradas@faunanews.com.br

Uma coisa que me chama muito a atenção sempre que eu estou trabalhando em campo com monitoramento da fauna silvestre atropelada é a quantidade de passarinhos mortos completamente inteiros encontrados na beirada das estradas. Sim, olhe para foto acima. Você acredita que esse animal tenha sido atropelado? Eu não. Normalmente eu digo que ele morreu de susto.

Mas como um animal tão íntegro poderia ter sido morto? Eu desconheço explicações científicas para esse fato, mas minha experiência diz que muitos desses animais são mortos pelo deslocamento de ar que muitos caminhões provocam ao trafegar pelas estradas. Se você já teve que parar na beirada de alguma estrada por motivos de urgência e coincidentemente um caminhão passou no mesmo momento, já deve ter percebido a grande quantidade de ar que eles deslocam e que isso muitas vezes pode até fazer você perder o equilíbrio.

Poderíamos discutir os motivos da morte desses animais e as medidas que poderiam ser tomadas para diminuir suas consequências, mas gostaria de introduzir outro ponto aqui: por que os passarinhos estão no acostamento da estrada sujeitos a serem afetados pelo deslocamento de ar dos caminhões? O que eles estão fazendo ali?

Jovem macho de polícia-inglesa-do-sul (Sturnella superciliaris) encontrado morto no acostamento da BR-101, RS, em uma região de cultivo de arrozA resposta para essa pergunta é bem simples: estão se alimentando dos grãos que ficam na estrada com o passar dos caminhões. Sim, o mesmo caminhão que alimenta, mata. O Brasil é uma potência mundial na produção de grãos e grande parte dessa produção é transportada nas estradas por caminhões abarrotados que percorrem grandes distâncias. Pela má conservação das carrocerias dos caminhões e pelas condições ruins das estradas, uma boa parte do que é produzido fica nos acostamentos. 

Segundo um relatório do IBGE de 2004, entre 1996 e 2002 o Brasil perdeu 28 milhões de toneladas de arroz, feijão, milho, soja e trigo por causa de perdas ocorridas na semeadura, colheita, transporte e estocagem dos grãos. Esses valores transformados em valores monetários significam um prejuízo de alguns bilhões de reais. Segundo um levantamento de 2014 da Federação da Agricultura no Rio Grande do Sul (Farsul), o Brasil perde R$ 9 bilhões todos os anos por más condições logísticas. 

O escoamento da produção agrícola brasileira sem desperdício ainda é um desafio. Entretanto, se desperdiçamos alimento (e consequentemente dinheiro) e, com isso, ainda matamos muitos animais que são atraídos por esse desperdício, por que não encontramos uma maneira de minimizar essas perdas? Transportar nossa produção por outras vias, como ferrovias e hidrovias, talvez fosse uma solução. Mas vamos começar por soluções mais fáceis: melhores formas de vedação dos caminhões através de melhores lonas e uma melhor manutenção das carrocerias podem ser um primeiro passo para isso!

Postado por Dimas Marques às 11:00

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