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Quinta-Feira, 19 DE Janeiro DE 2017

Fauna e Estradas - As rodovias unem as pessoas, mas isolam o ambiente

Mapa global das áreas sem rodovias. Cada fragmento está classificado segundo uma escala de qualidade do habitat. Pior qualidade: cor laranja, melhor qualidade: cor azul

Por Júlia Beduschi
Bióloga e mestranda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), trabalhando junto ao Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias (NERF) da mesma instituição.
estradas@faunanews.com.br

As estradas causam vários impactos ao ambiente. Os impactos que afetam diretamente a fauna e a flora são mais fáceis de serem notados, como os atropelamentos de animais e o desmatamento, ou seja, a perda do habitat. Acontece que os efeitos que as estradas causam vão muito além do que um motorista viajando consegue notar, e é até mesmo de difícil quantificação pelos pesquisadores. Entre os impactos das rodovias estão a poluição sonora e química, a facilitação de introdução de espécies exóticas, o efeito de barreira dificultando o deslocamento dos animais e separando populações e a fragmentação do habitat.
 
Hoje vou falar mais sobre o impacto da fragmentação do habitat. Afinal, o que é?

A fragmentação é a divisão do habitat em áreas menores. Essa divisão pode acarretar na alteração do ambiente de cada fragmento, afetando a sua qualidade. As rodovias são vetores de fragmentação, pois elas cortam o ambiente fisicamente, impedem que animais que tentam atravessar cheguem de fato ao outro lado (causado tanto pelo atropelamento quanto pela inibição do animal em atravessar), e ainda proporcionam fácil acesso a regiões ainda não ocupadas, aumentando o impacto das ações do homem. 
Considerando tantos efeitos negativos que as rodovias causam ao ambiente e imaginando quantas rodovias há no mundo, afinal elas são o principal meio de transporte de pessoas e de bens, um grupo de pesquisadores da Alemanha publicou na revista Science um mapa global de áreas não impactadas por rodovias e avaliaram a qualidade de cada um desses fragmentos.

O resultado do estudo é alarmante. Apesar de as áreas sem rodovias cobrirem 80% da superfície terrestre, essas áreas estão divididas em 600 mil “pedaços”. A densidade de rodovias é tão grande no mundo que mais da metade dos fragmentos possuem uma área menor do que apenas 100 ha (1 km²), 80% possuem uma área menor do que 5 km² e apenas 7% dos fragmentos possuem áreas com até 100 km². Além disso, cerca de um terço das áreas sem rodovias são classificadas como áreas de baixa qualidade, pois são fragmentos pequenos, isolados ou são muito impactados pelas ações humanas (como ilustrado no mapa abaixo). E alguns fragmentos grandes ocorrem em zonas áridas com baixa biodiversidade.

O estudo ainda fez uma análise de como as agendas de promoção do desenvolvimento sustentável tratam o tema. A agenda da ONU chamada Metas para o desenvolvimento sustentável (Sustainable development goals) fala de rodovias apenas como um promotor de crescimento econômico. A agenda possuí 17 metas, em cinco das metas as estratégias de sustentabilidade são adequadas para a conservação das áreas sem rodovias, porém em quatro metas propostas as estratégias estão diretamente em conflito com a conservação dessas áreas.

Com o que ficamos deste estudo? 

Lição número 1: o mundo está “picotado” pelas estradas, ou como foi dito numa coluna do site O Eco, vivemos num planeta de retalhos. 

Lição número 2: as rodovias não são apenas fatores de crescimento econômico, apesar de importantes para o deslocamento de pessoas e o transporte de materiais e bens, elas são vetores de fragmentação e isolamento de habitat. 

Lição número 3: devemos ter estratégias de manejo de rodovias, visualizando-as dentro da paisagem e não apenas no domínio da faixa de rodagem.
 
Lição número 4: as entidades internacionais, os empreendedores e os tomadores de decisões devem aprender mais sobre impactos antes de discutirem desenvolvimento sustentável, ou a ignorância é proposital, pois a preocupação com o ambiente está em segundo plano quando se trata de “crescimento econômico”. 

Postado por Dimas Marques às 00:00

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