Fauna News

Buscar

banner_20-08-2014.gif

Quinta-Feira, 30 DE Março DE 2017

Fauna e Estradas - Quem não morre está salvo?

Por Andreas Kindel
Biólogo, professor associado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias da mesma universidade (NERF-UFRGS)
estradas@faunanews.com.br

Em se tratando da interação entre animais e estradas, sejam rodovias ou ferrovias, parece que a resposta óbvia é sim. Mas, como sempre, nada é tão simples como parece...

A morte de indivíduos que tentam atravessar as estradas é uma ameaça importante para a persistência das suas populações no entorno das estradas. Mitigar essa mortalidade significa salvar esses indivíduos e suas populações. Mas há inúmeras espécies para as quais jamais foram feitos registros de carcaças nas estradas - ou eles são muito esporádicos -, ainda que as espécies estejam presentes ou até sejam comuns nos ambientes marginais. Embora existam outros mecanismos para explicar a ausência de registros (por exemplo, detecção imperfeita de espécies muito pequenas), muitas das espécies jamais registradas evitam transpor as clareiras abertas pelas rodovias.

Exemplos podem ser encontrados entre as espécies que vivem nas brenhas e folhiço, ou seja, nas porções mais escuras e úmidas da floresta como muitas espécies de aves e anfíbios. Outro grupo raramente encontrado atropelado é das espécies que quase nunca ou nunca descem do extrato mais alto da floresta, o dossel, e que necessitam da contiguidade da copa das árvores para se deslocarem, como alguns primatas, ratos de espinho e algumas espécies de anfíbios. São espécies para as quais as estradas provavelmente são uma barreira quase intransponível. Embora os efeitos sobre as populações possam demorar mais a aparecer do que para espécies cujas populações perdem indivíduos pela mortalidade, eles certamente ocorrerão. Subdivisão de populações, perda de variabilidade genética e consequente aumento de risco de declínio populacional são alguns deles.

Imagem aérea do ecoduto de Missiones. Talvez eles sejam uma das poucas esperanças para espécies que evitam a travessia de estradas Raríssimos são os esforços de mitigação dos efeitos das estradas focados nas espécies que as evitam, ou seja, que não são atropeladas. Para ser sincero, não conheço nenhum. Medidas como as passagens de fauna, não importa se faunodutos ou pontes de corda, mesmo que também sejam justificadas pela sua função para a recuperação da conectividade, somente são monitoradas para avaliar o uso por espécies que normalmente tentam cruzar a estrada (e por isso morrem). Nenhum esforço é feito para monitorar quais são as espécies que relutam em atravessar (se aproximam mas desistem) ou as que sequer se aproximam. Estruturas potencialmente mais abrangentes com relação à lista de potenciais beneficiários, em virtude de manterem contiguidade de cobertura vegetal entre os dois lados da estrada, como as passagens superiores vegetadas (os ecodutos) ou as pontes com vão estendido, também têm sua efetividade normalmente avaliada somente para médios e grandes mamíferos.

É urgente que saibamos como as estruturas de mitigação, inclusive as mais caras, contribuem para a mitigação do efeito barreira para as espécies que evitam as estradas. Do contrario, poderemos estar salvando apenas mamíferos da morte por atropelamento. Não há dúvida que eles são importantes! Mas existe uma parcela gigante da biodiversidade que pode estar sendo negligenciada!

 

Postado por Dimas Marques às 21:00

Deixe seu comentário

comentários por Disqus

Artigos relacionados