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Terça-Feira, 22 DE Agosto DE 2017

Os Silvestres e a Nossa Saúde: a toxoplasmose e o contato com felinos selvagens

Por Elisângela de Albuquerque Sobreira
Médica Veterinária e mestre em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Doutoranda em Animais Selvagens pela Universidade Estadual Paulista (Unesp/Botucatu). Já foi Gerente do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Anáplois (GO), onde fundou e mantém o Centro Voluntário de Reabilitação de Animais Selvagens (CEVAS)
nossasaude@faunanews.com.br

A toxoplasmose é uma zoonose de grande importância para a saúde pública. É uma enfermidade infecciosa cosmopolita, causada pelo protozoário intracelular obrigatório Toxoplasma gondii, que afeta uma grande variedade de mamíferos e aves. O gato doméstico e os felídeos selvagens são os hospedeiros definitivos, nos quais o parasito faz um ciclo enteroepitelial com excreção de oocistos (célula germinativa feminina) junto às fezes no meio ambiente.

Além do contato direto com as fezes infectadas do gato ou de outros felídeos selvagens contendo oocistos esporulados (com cápsula protetora) no ambiente, o homem pode contrair o parasito através de alimentos contaminados ingeridos crus ou mal cozidos (carnes, embutidos, etc), hortaliças, leite de cabra não pasteurizado, ovos, além da contaminação por transplantes e transfusão sanguínea.

No caso de felinos selvagens, alguns patógenos (agente causador da doença) foram descritos, mas pouco progresso foi feito para entender a história natural e especialmente as interações epidemiológicas de felídeos selvagens com felídeos domésticos e populações humanas.

Excluindo Puma concolor (onça-parda), Lynx rufus (lince-pardo) dos Estados Unidos e Lynx canadensis (lince-do-canadá) no Canadá, todas as outras espécies de felídeos neotropicais são classificadas em diferentes categorias de risco de transmissão da doença devido a ações antropogênicas na biodiversidade, principalmente as únicas duas espécies endêmicas da América do Sul: Leopardus guigna (gato-chileno) do Chile e L. jacobita (gato-andino) da Cordilheira dos Andes. Nesse cenário desfavorável, há ainda o problema do pouco conhecimento biológico, ecológico e infeccioso sobre as doze espécies de felídeos selvagens que habitam o continente americano.

A toxoplasmose apresenta-se nas formas clínicas aguda ou crônica, as quais dependem basicamente da interação parasita-hospedeiro. Do ponto de vista do parasito, fatores como tipo de cepa (grupo de descendentes) envolvida e a sua patogenicidade estão relacionados com o curso da doença. Quanto ao hospedeiro, o estado imunológico e a espécie infectada são os fatores mais importantes. Nos casos agudos, os órgãos mais afetados são os pulmões, fígado, baço, linfonodos, intestino e cérebro, cujas alterações são secundárias à necrose tecidual resultante da replicação e ruptura das células hospedeiras pelos taquizoítos (formas de proliferação rápida). Quando o hospedeiro adquire resistência, a infecção torna-se crônica e nesses casos são visíveis cistos de bradizoítos (formas de reprodução lenta do Toxoplasma gondii) em locais como cérebro, mus¬culatura esquelética e cardíaca.

No Brasil, o número de encontros de felinos selvagens com a população humana passou de esporádico a cada vez mais frequente. Em 2012, pelo menos 57 eventos foram gravados usando a ferramenta de alertas do Google. Esses eventos envolveram Leopardus pardalis (jaguatirica), com 24 registros, Puma concolor, (onça-parda), com 20 registros, Leopardus tigrinus (gato-do-mato), com 9 registros, e Panthera onca (onça-pintada), com 4 registros, em centros urbanos e acidentes rodoviários, evidenciando maiores chances de transmissões por essas espécies.

O contato com felinos silvestres está cada vez mais comum. Na foto, a onça-parda foi atropelada no Paraná

A importância da toxoplasmose em termos de saúde pública reside no fato de essa zoonose representar uma causa importante nas alterações neonatais. A toxoplasmose congênita é a principal forma da doença em humanos. É a forma de manifestação mais grave do Toxoplasma gondii, ocorrendo em mulheres não imunes que soroconvertem durante a gestação, podendo o feto apresentar lesões severas, como a hidrocefalia, microcefalia e calcificações cerebrais. Os recém-nascidos podem não apresentar sinais clínicos e posteriormente manifestar alterações como coriorretinites, retardamento mental ou distúrbios psicomotores.

A toxoplasmose tem cura e o seu tratamento é feito com o uso de antibióticos, que variam de acordo com o tipo e a gravidade da infecção. O tratamento da toxoplasmose deve ser iniciado logo que a doença seja identificada, sendo o diagnóstico feito através de um exame de sangue que identifica a existência de anticorpos IgG e IgM no corpo, que são produzidos para combater o protozoário causador da doença.

Postado por Dimas Marques às 15:00

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