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Terça-Feira, 19 DE Setembro DE 2017

Os Silvestres e a Nossa Saúde: Risco de transmissão de zoonoses por mordeduras de macacos

Por Elisângela de Albuquerque Sobreira
Médica Veterinária e mestre em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Doutoranda em Animais Selvagens pela Universidade Estadual Paulista (Unesp/Botucatu). Já foi Gerente do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Anáplois (GO), onde fundou e mantém o Centro Voluntário de Reabilitação de Animais Selvagens (CEVAS)
nossasaude@faunanews.com.br

Semana passada, vimos nas redes sociais o caso de mordeduras de macacos no município de Bragança Paulista, em São Paulo, onde nove pessoas brincavam com os primatas em um bar. Esse assunto retorna às mídias e é bastante preocupante, pois através de mordeduras são transmitidas várias doenças, dentre elas algumas fatais como a raiva e a herpesvirose (herpes B), que pode desencadear a meningite.

Macaco pouco antes de morder uma das orelhas do cliente do bar, em Bragança Paulista (SP)Os casos de mordedura ocorrem com relativa freqüência em todo o país, envolvendo desde os profissionais que lidam com o manejo de fauna até os visitantes de parques. A situação de cativeiro dos animais em ambiente doméstico também contribui para o aumento dos casos.

A raiva é causada pelo vírus Lysssavirus, que se alastra pelo sistema nervoso central e se multiplica nas glândulas de saliva, dali sendo eliminado. O contágio se dá pela saliva do animal que está com a infecção, principalmente pela mordida, mas pode ocorrer por arranhadura ou lambedura. Os animais que podem ser contaminados são o cachorro, o gato, o morcego, a raposa, o coiote, o gato-do-mato, a jaritacaca, o guaxinim e o macaco. O tempo médio até o surgimento dos sinais de doença são de cerca de 45 dias no homem e de até dois meses nos animais, levando à morte.

O Herpesvirus simiae (vírus da herpes B) há muito tempo tem sido o mais temido dos vírus de símios, por ser usualmente fatal para os humanos. O Herpesvirus simiae ocorre em primatas do velho mundo, freqüentemente relatados em rhesus, cynomolgus e o Cercopithecus pygerythrus (vervet monkeys). A evidência sorológica de exposição viral também foi identificada em babuínos (Papio spp), chimpanzés (Pan troglodytes) e macacos-verdes-africanos (Cercopithecus aethiops). O significado dos títulos (estudos de níveis de proteção a partir de anticorpos) e do risco potencial desses três últimos animais é desconhecido. Entretanto, foi descrito um caso de infecção por vírus B em uma pessoa exposta apenas a macacos-verdes-africanos. Essa doença é transmissível ao homem, causando uma encefalite ascendente fatal.

O primeiro caso humano foi relatado em 1943, quando o vírus foi isolado do cérebro de um tratador, o qual havia sido mordido por um macaco rhesus clinicamente normal. Dezesseis dos dezoito casos relatados em humanos foram fatais e apenas um dos dois sobreviventes não permaneceu com sequela.

Há hoje 24 casos documentados de herpes B em humanos, sendo 18 fatais. A doença não é transmitida apenas pela mordida, sendo também por aerossóis ou contato da conjuntiva com gotas de saliva do animal infectado, arranhões ou manejo inadequado de tecidos contaminados (oriundos do primata). O vírus pode ser isolado da saliva, sangue, culturas de tecido renal, urina e fezes de símios infectados.

Herpes B no homem caracteriza-se por mielite (inflamação da medula espinhal) e encefalite ascendentes. Além disso, podem surgir outros sintomas como náusea, dores na garganta e tosse. O diagnóstico definitivo exige uma história comprobatória de exposição a um macaco, títulos crescentes de herpes B e possível isolamento viral. O período de incubação no homem varia entre 10 e 21 dias. Os sinais clínicos em primatas incluem febre, lesões nas junções mucocutâneas dos lábios inferiores e superiores e lesões ulcerativas no terço anterior do dorso da língua. As lesões desaparecem espontaneamente em 14 dias.

Portanto, por mais que o macaquinho pareça dócil, não se deve alimentá-lo nos parques ambientais. Uma hora ele poderá apresentar seu “instinto selvagem” e até morder as pessoas. Ao sentirem-se ameaçados, os primatas utilizam a mordedura como mecanismo de defesa.

O costume de se manter primatas como pets pode trazer severos riscos à saúde pública, necessitando de campanhas sobre o assunto.

Há ainda uma grande falta de trabalho de conscientização dos visitantes nos parques e principalmente de fiscalização para que possamos obter sucesso nos trabalhos de educação ambiental.

Postado por Dimas Marques às 00:00

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