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Sexta-Feira, 08 DE Dezembro DE 2017

Fauna e Estradas - Passagens de fauna: para que e para onde

O sucesso das passagens de fauna depende dos objetivos que justificaram sua construção

Por Andreas Kindel
Biólogo, professor associado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias da mesma universidade (NERF-UFRGS)
estradas@faunanews.com.br

Durante esta semana, acontece em Belo Horizonte o IV Simpósio Brasileiro de Biologia da Conservação. Além da programação diversa e instigante, o evento trouxe uma série de inovações, sobretudo nas formas de comunicação e divulgação. A mais interessante é a necessidade de cada trabalho inscrito para apresentação durante o evento ter um vídeo divulgando as ações e os resultados do projeto. Todos os vídeos foram disponibilizados e concorriam à premiação a partir das escolhas de um júri do evento e do voto popular (número de curtidas).

A ideia aqui não é discorrer sobre as inúmeras oportunidades que esse tipo de iniciativa de comunicação gera e sim chamar a atenção para dois vídeos que trataram do mesmo tema, porém em contextos diferentes. O primeiro vídeo avalia o uso de passagens de fauna por mamíferos em uma rodovia de Minas Gerais (vídeo 1) e o segundo avalia o uso das passagens por antas em uma ferrovia que corta o Mato Grosso (vídeo 2).

Vídeo 1:

Vídeo 2:

 

Imagens de animais atravessando passagens são uma mensagem de esperança e são a comprovação de que são usadas por múltiplas espécies. Mas será que são suficientes para comprovar que estão sendo efetivas? Ou seja, o fato de documentarmos as travessias significa que seus objetivos foram cumpridos e a fauna está salva? 

Para confirmarmos o sucesso da implantação das passagens é preciso revisar os objetivos da sua implantação. Se as passagens foram implantadas para diminuir a mortalidade, é necessário medir a mortalidade antes e depois da implantação das passagens e/ou em locais com e sem passagem. Se o objetivo primário era manter ou recuperar a conectividade das populações entre os dois lados da estrada, é necessário medir a conectividade antes e depois da implantação das passagens e/ou em locais com e sem passagem. Resumindo: é importante monitorar o uso das passagens pela fauna (e meu objetivo aqui não é criticar essas iniciativas), mas chamar a atenção de que isso não é suficiente para julgarmos que estamos tendo sucesso na proteção da fauna. 

Nós exploramos esse e alguns outros mitos relacionados à avaliação e planejamento da mitigação de impactos em estradas em um recente artigo de opinião publicado na revista Área Aberta (p. 73-79).

Finalmente, é preciso lembrar que estradas, sejam rodovias ou ferrovias, são vetores do processo de expansão da fronteira agrícola e, portanto, da simplificação de ecossistemas, substituindo sistemas complexos e biodiversos como florestas, cerrados e campos por monoculturas. De nada adianta termos passagens, se antas, veados, gatos-do-mato e tantos outros não tiverem para onde ir. Essas estratégias de mitigação obrigatoriamente devem vir acompanhadas de outras ações de proteção de habitat na área de influência desses empreendimentos.

Postado por Dimas Marques às 22:00

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