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Quinta-Feira, 12 DE Julho DE 2018

Fauna e Estradas - Túnel do amor

O impacto dos túneis sob uma rodovia na população deste pequeno gambá, da Austrália, foi objeto de duas pesquisas

Por Bibiana Terra
Graduada Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente trabalha junto ao Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias (NERF) da mesma universidade
estradas@faunanews.com.br

Quem nunca viveu um amor de verão e depois se separou do seu par? O mesmo acontece todos os anos com indivíduos de uma pequena espécie de marsupial, o gambá-pigmeu-da-montanha (Burramys parvus), que ocorre nas montanhas do Alpine National Park, no sudeste da Austrália. Os machos e as fêmeas ficam separados durante quase todo ano para que haja menor competição por alimento e outros recursos. Mas, durante o verão os machos se deslocam para o território das fêmeas e logo após o acasalamento eles retornam aos seus territórios, permanecendo lá até o próximo período reprodutivo. 

Mas a história não é tão linda quanto parece.

O habitat dessa espécie tem sido degradado e fragmentado para o desenvolvimento de resorts de ski, pois essa região fica completamente coberta por neve durante o inverno. E para piorar esse cenário, uma rodovia construída entre os territórios de machos e fêmeas passou a impedir que o deslocamento dos machos acontecesse, sendo que essa área concentra mais de 50% da população mundial da espécie. 

Tentando salvar esse amor
Com o objetivo de conectar os dois territórios e restaurar a conectividade da população, dois túneis foram construídos embaixo da rodovia. Estudos avaliando a efetividade dessas medidas demonstraram resultados animadores. Um deles, realizado em 1989, demostrou que os gambás usavam as passagens de fauna. Mas será que esse uso era suficiente para restaurar a conectividade da população? Querendo responder essa pergunta, outro estudo (realizado em 2009) avaliou as populações antes e depois da construção dos túneis. Eles demonstraram que a população presente na rodovia sem estruturas de mitigação tinha um tamanho populacional 40% menor quando comparada a uma população não afetada por uma rodovia, porém com a presença dos túneis essa diferença no tamanho da população se torna de apenas 15%. Esses resultados evidenciam que os túneis funcionam para conectar os dois lados das estradas e facilitam reprodução da população, porém não eliminam por completo os efeitos da estrada. 

Essa história nos leva a uma conclusão importante sobre medidas de mitigação. Estruturas mitigadoras são necessárias para auxiliar a persistência de populações próximas as rodovias. A aplicação dessas medidas tem se tornado mais comum nos últimos anos, mas pouco se sabe sobre a efetividade delas. Isso porque a maior parte dos estudos avaliam apenas o uso dessas estruturas e, a partir disso, assumem que elas estão sendo efetivas, mas não avaliam de fato se as medidas de mitigação estão cumprindo seu papel.

Os estudos com o gambá-pigmeu-das-montanhas são um exemplo da importância de se avaliar a efetividade. O segundo trabalho concluiu que os túneis são efetivos para restaurar a conectividade entre os territórios de machos e fêmeas dessa espécie, o que foi sugerido pelo primeiro. A diferença entre os estudos é que o segundo avaliou e quantificou a efetividade dos túneis e sua dimensão nas populações da espécie, demonstrando que de fato as medidas estão contribuindo na persistência das populações. A avaliação apenas do uso das passagens demonstra a sua efetividade em nível de indivíduo, mas não evidencia se ela repercute em nível populacional.

Por fim, vale ressaltar que a falta de conectividade é apenas um dos problemas causados pelas rodovias na fauna e que medidas de mitigação devem ser pensadas para cada um dos impactos gerados, devendo ser avaliadas de acordo com os objetivos propostos.

Postado por Dimas Marques às 23:30

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