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Terça-Feira, 16 DE Abril DE 2019

Na Linha de Frente - Caça esportiva ou amadora: a falácia da caça e conservação

Em julho de 2015, o leão Cecil foi morto no Zimbábue pelo dentista americano Walter Palmer, que pagou US$ 55 mil e estava caçando legalmente. Caso gerou comoção mundial

Por Roberto Cabral Borges
Biólogo, mestre em Ecologia e Analista e Agente Ambiental do Ibama
nalinhadefrente@faunanews.com.br

A caça é uma atividade em que humanos, lerdos demais para alcançar animais velozes e frágeis demais para matar animais ferozes, atiram nos animais a dezenas de metros de distância e se gabam disso.

Os caçadores se consideram predadores, mas, embora ambos matem as presas, a semelhança termina nesse único fato.

Os predadores dependem da presa para sua sobrevivência e a população de presas é, em geral, controlada pelos predadores. Eles atacam as presas menos aptas, doentes ou velhas. Todavia, a quantidade de caçadores não depende da quantidade de presas e, principalmente, os caçadores almejam os melhores “troféus”. Ou seja, os caçadores matam as presas mais aptas. Como resultado, enquanto predadores controlam a população e eliminam os espécimes menos aptos, os caçadores podem exterminar uma população e eliminam os indivíduos com as melhores características genéticas. Em uma analogia com a criação de bovinos, os caçadores matam o boi premiado.

Até o turismo de observação, quando mal planejado e excessivo, causa problemas aos animaisDessa forma, a caça esportiva, também dita amadorista, poderia até manter determinada população, mas atua negativamente nela. A caça amadora elimina os melhores espécimes da população.

A despeito deste impacto negativo, os caçadores argumentam que sua atividade sustenta áreas naturais e as populações humanas nativas que ali vivem. O discurso é envolvente. Afinal, se desconsiderarmos questões éticas, estaríamos mantendo áreas naturais em troca da morte de alguns indivíduos. Teríamos que realmente desconsiderar os aspectos éticos, não ligar, por exemplo, para a matança por esporte, para o fútil desejo de expor uma cabeça como troféu e, ainda, desconsiderar que os caçadores não são snipers e, assim, os animais sofrerão na caçada.

A África tem sido citada como local onde a caça autorizada possibilita a conservação das populações naturais. Porém, a aparência pode enganar. O que à primeira vista parece um bem sucedido caso de conservação, sob um olhar mais aguçado, expõe um manejo intensivo de animais que em muito se afasta de populações sobrevivendo livres em seu ambiente natural. A caça enlatada é o padrão, não a exceção.

Filhotes de leões são criados para entretenimento e depois enviados para serem caçadosOs animais são criados para serem soltos em ambientes de semiliberdade e abatidos pelos caçadores. Filhotes de leões nascidos em zoológicos e usados para interagir com pessoas, depois são liberados para serem caçados. “Cuddle me, kill me” é o título de um livro vendido na África que retrata bem a crueldade da caça enlatada: afague-me primeiro e mate-me depois.

A caça regulamentada não eliminou a caça ilegal, que ainda é um grande problema na África. Ademais, no Brasil, a legislação prevê a reserva legal e a área de preservação permanente, locais onde a vegetação natural deverá ser mantida na propriedade. Portanto, a manutenção das matas e das populações animais não depende da caça, depende do cumprimento da legislação ambiental pelos produtores rurais. A caça esportiva produz e apenas mantém as espécies de interesse e, para se sustentar financeiramente, evolui para um sistema de fazendas de caça enlatada. Essas fazendas são arenas, um coliseu moderno, onde os animais são jogados para morrer e a manutenção dos processos ecológicos e de seleção natural são apenas aparência.

Além de questionável eticamente, a conservação promovida pela caça é uma falácia.

Postado por Dimas Marques às 11:00

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