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Quinta-Feira, 09 DE Maio DE 2019

Fauna e Estradas - Medidas de mitigação são só curativos

Foto de um viaduto para a fauna construído no Canadá

Por Júlia Beduschi
Bióloga e mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalha junto ao Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias (NERF) da mesma instituição
estradas@faunanews.com.br

As medidas de mitigação são estruturas ou ações que ajudam a minimizar o impacto das rodovias sobre a fauna. Elas podem ser direcionadas às pessoas, como ações de conscientização e placas indicativas, ou direcionadas para que os animais não cheguem até a rodovia, como cercas, passagens de fauna subterrâneas (túneis), passagens de fauna sobre a estrada e até a construção de estradas elevadas. Hoje, as medidas de mitigação têm sido popularizadas e há um crescente consenso da necessidade e obrigatoriedade da instalação dessas estruturas em rodovias e ferrovias.

Quer dizer que se instalar medidas mitigadoras fica tudo bem?

Com a construção de uma rodovia, há a mortalidade por atropelamento, a fragmentação da paisagem e consequente redução da conectividade do habitat, o desmatamento acelerado em virtude de ocupações humanas adjacentes à rodovia, as poluições química, sonora e de iluminação, a facilitação de acesso a caçadores e a invasão de espécies exóticas. A instalação das medidas mitigadoras citadas acima (que são as mais utilizadas) tentam minimizar apenas os impactos dos atropelamentos (como cercas, placas e ações de conscientização) e a conectividade de habitat (como passagens de fauna e estradas elevadas). Aqui temos o primeiro ponto claro de que a instalação de medidas mitigadoras não contempla todos os impactos causados por uma rodovia.

De fato, os atropelamentos e a fragmentação são os impactos mais estudados e possuem um grande potencial na redução das abundâncias das populações e das riquezas de espécies nas áreas adjacentes. Existem estudos que demonstram um aumento na viabilidade das populações com a instalação das passagens de fauna, porém, esse aumento é registrado apenas para ALGUMAS espécies (em geral, mamíferos) e é sempre em relação ao cenário de estrada sem passagem - parece óbvio, mas é bom lembrar que um cenário sem estrada sempre vai ter maior viabilidade para espécies impactadas pela estrada e é a única forma de evitar os danos ao ambiente. Além disso, a efetividade das medidas de mitigação não é bem conhecida, porque são poucos os estudos que avaliam e, quando avaliada, muitas vezes consistem em desenhos amostrais mal elaborados.

Portanto, as medidas de mitigação são melhores que nada, mas são apenas um curativo, muitas vezes mal feito, para a enorme epidemia que são os impactos ao ambiente provindos das estradas. A venda da ideia “vamos construir uma estrada, mas colocaremos passagens de fauna e fica tudo bem” está completamente equivocada, principalmente quando essas novas construções vêm para cortar fragmentos grandes ainda bem preservados e/ou unidades de conservação (UCs). No caso de unidades de conservação, a luta por não construir estradas deve ser ainda mais acirrada, afinal estas áreas já estão protegidas por lei e os argumentos técnicos e jurídicos para o não aumento de impactos antrópicos está na própria razão de existir de uma UC.

Postado por Dimas Marques às 17:00

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