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Sexta-Feira, 20 DE Setembro DE 2019

PHOTO ANIMAL - Como fotografar a vida selvagem eticamente (parte II)

Fotografar respeitando os animais é parte do trabalho de quem trabalha com a vida selvagem

Colocar o bem-estar dos animais em primeiro lugar deve ser o objetivo de todo fotógrafo de vida selvagem. E os profissionais da National Geographic compartilham dicas de como eles fazem isso.

Por Marcelo Calazans
Técnico em agropecuária, administrador de empresas e fotógrafo. Foi professor da disciplina Fotografia de Natureza pelo Senac-MS
photoanimal@faunanews.com.br

Olá, como está?

Dando continuidade ao tema do artigo anterior, segue mais um pouco de material sobre a conduta de observadores e fotógrafos de vida selvagem de outros países. Mas muito do que está escrito pode e deve ser adaptado para cá - as regras de conduta, principalmente. 

Destaco, novamente, que o texto a seguir é a continuação da tradução livre do original de Melissa Groo, intitulado “How to photograph wildlife ethically” e publicado em 31 de julho de 2019 no site da National Geographic. Na primeira parte, foram dadas as dicas “Não faça mal!” e “Mantenha-se invisível”.

Então vamos ao que interessa!

3 – Siga as leis!
As leis variam de acordo com o local e as espécies a serem registradas, e variam de acordo com a finalidade da imagem e o método empregado para essa captura.

É crucial saber quais são e respeitar as leis e os regulamentos em parques locais, estaduais e nacionais, assim como saber a distância a ser mantida entre nós e determinadas espécies. Essas recomendações existem para manter a nós e a vida selvagem seguros. Não faltam notícias sobre turistas que ignoraram essas e outras regras dos locais onde foram fotografar e se machucaram. Em muitos casos, o animal “causador” do problema é abatido. 

Em qualquer parque ou outra área protegida, se pretendemos fazer fotografias comerciais, realizar oficinas ou cursos ou colocar armadilhas fotográficas, somos obrigados a obter as permissões necessárias. Isso inclui áreas marinhas protegidas. 

O uso de drones para captura de imagens da vida selvagem é um assunto controverso e as leis variam amplamente. Eles não são permitidos em parques nacionais, áreas selvagens e reservas naturais dos EUA. E para os lugares onde são permitidos, ainda devemos considerar seus efeitos sobre a vida selvagem. Um conhecido estudo de 2015 documentou o efeito dos drones na frequência cardíaca de ursos-negros em Minnesota. Embora não houvesse sinais externos de estresse, os batimentos cardíacos dos ursos subiram até 123 batimentos por minuto acima da linha de base antes do voo quando um drone estava presente. 

4 – Imagens de animais em cativeiro
Examine oportunidades para fotografar animais selvagens em cativeiro. Saiba em detalhes o que faz um verdadeiro santuário ou zoológico e evite lugares onde os animais são explorados com fins lucrativos.

A fotografia de animais selvagens em cativeiro é uma atividade popular, especialmente para pessoas que podem não ser capazes ou não estão dispostas a viajar para lugares distantes para ver a vida selvagem em seu ambiente. Uma ampla variedade de instalações oferece oportunidades para fotografar animais exóticos, incluindo zoológicos, santuários, locais onde animais resgatados são direcionados, reservas, centros de vida selvagem, refúgios, parques de aventura e parques de safáris. As condições da vida selvagem em cativeiro variam de sórdidas a exemplares, assim como as razões de seu cativeiro variam de ganância a compaixão.

Uma multidão de turistas tenta fotografar uma chita na Reserva Nacional Masai Mara, no Quênia. A presença de humanos pode perturbar a capacidade de um animal de desenvolver comportamentos naturais 

O mundo da vida selvagem em cativeiro é uma indústria de massa e pouco regulamentada. As instalações em alguns lugares podem se chamar de qualquer coisa menos de “abrigos” e os chamados “pseudo-santuários” abundam. Nos EUA, eles precisam apenas de uma licença do departamento de vida selvagem para exibir animais selvagens ao público.

Em alguns casos, animais de vida livre podem ter sido feridos e resgatados da natureza. Bem cuidados, eles servem como embaixadores de suas espécies. Em outros, eles podem ter sido confiscados de uma instalação que os maltratou e estão vivendo seus dias em um refúgio seguro e tranqüilo. Ou eles podem ser exibidos em um zoológico de beira de estrada para obtenção de lucro e o resto de suas vidas serão passadas em pequenas gaiolas com chão de cimento.

E existem fazendas voltadas especificamente para a atividade de fotografar vida selvagem. Essas são compostas por cativeiros que atendem expressamente os “fotógrafos”. Esses lugares, a maioria localizados em Montana e Minnesota, garantem a obtenção de imagens espetaculares de animais selvagens exóticos, como tigres-siberianos e leopardos-da-neve, e de espécies nativas e magníficas, como lobos, linces e outros gatos selvagens. Esses animais selvagens, geneticamente ligados ao hábito de caçar e perambular por grandes distâncias, podem viver em pequenos recintos, exceto quando se apresentam para as câmeras dos clientes, persuadidos por guloseimas e estímulos feitos por alguém fora do quadro da fotografia. Eles surgem na neve de frente para o fotógrafo ou ficam perfeitamente “congelados” dentro de um tronco de árvore, por exemplo. Às vezes, eles são transportados de caminhão para outros estados, para posar em cenários alternativos, como as montanhas vermelhas de Utah. Eles sempre estão impecáveis, não têm sinais de sujeira, a pelagem está sempre limpa e em condições de tempo e clima perfeitos.

Esquerda: zebras atravessam as planícies da Namíbia, perturbadas pelo parapente do fotógrafo. Antes do advento dos drones, era difícil obter vistas aéreas da vida selvagem sem perturbar os animais. Imagem de George Steinmetz, Nat Geo Image Collection. Direita: um ?microcóptero? captura uma leoa e seus filhotes descansando entre um afloramento rochoso no Parque Nacional Serengeti, na Tanzânia. A família não se incomoda com a presença do drone. Imagem de Michael Nicholz, Nat Geo Image Collection

Os proprietários dessas fazendas defendem suas operações dizendo que os animais nascidos em cativeiro não têm as mesmas necessidades ou dificuldades dos animais nascidos em vida livre e que vivem mais porque têm fontes confiáveis de alimento e proteção contra predadores. Mas o especialista em consciência animal Carl Safina, autor de “Beyond words: What animals fhink and feel” (Além das palavras: o que os animais pensam e sentem), argumenta que “não é apenas a existência que importa. Uma pessoa pode viver na prisão com boa saúde por um longo tempo. O que importa é a qualidade de vida. Diferentes instituições e estabelecimentos variam amplamente na qualidade de vida experimentada pelas criaturas sob seus cuidados.”

Grande parte da indústria fotográfica condena esses lugares e as fotos obtidas nesses locais são proibidas em concursos de fotos de alto nível e na maioria das principais revistas, incluindo a National Geographic. Para todas as espécies mantidas por uma fazenda, há um fotógrafo de conservação que fotografou com cuidado e consciência essas espécies em estado selvagem, em seu verdadeiro habitat, exibindo comportamento natural.

Devemos reconhecer que os dólares gastos nesses locais validarão e perpetuarão as condições de vida em que esses animais se encontram sem escolha própria.
Existem organizações que podem ajudar a determinar se um autointitulado “santuário”, “refúgio” ou “centro de resgate” é realmente o que afirma ser. Comece com a Federação Global de Santuários de Animais (GFSA). As instalações credenciadas pela GFSA devem atender a altos padrões de qualidade e gerenciamento. Outra fonte é a Associação de Zoológicos e Aquários (AZA). Embora alguns possam discutir se todas as operações credenciadas pela AZA oferecem a qualidade de vida a um animal em cativeiro que desejamos, esses locais são mantidos com altos padrões de atendimento e qualidade. Observe que o AZA é distinto da ZAA – Associação Zoológica da América –, uma coalizão controversa com um acrônimo confuso.

5 – Transparência e honestidade
Seja transparente sobre como a fotografia foi feita.

A prática da ética na fotografia de vida selvagem não termina quando voltamos ao conforto de nossa casa. Como representamos a verdade da vida de um animal quando compartilhamos nossas fotos, é importante a honestidade.

“Seja sincero com o leitor”, diz Joel Sartore, fotógrafo da National Geographic. “Conte a eles a história de fundo se houver algo sobre como a imagem foi feita que não seja óbvia apenas na visualização da imagem. Seja franco se estiver trabalhando com um animal treinado ou se o animal tirou sua própria foto disparando uma armadilha fotográfica.” Se for uma captura excepcional ou inesperada com uma história importante, escreva um pequeno texto para explicar como aconteceu.

O fotógrafo Joel Sartore fotografa um jacaré-anão, no Zoo de Sunset, para a Photo Ark da National Geographic. As legendas da Photo Ark incluem sempre o local da fotografia para que o leitor saiba como a foto foi feita e Sartore trabalha em estreita colaboração com os tratadores para garantir o bem-estar do animal durante o processo

Brian Skerry, um fotógrafo de longa data da National Geographic especializado em fauna marinha, coloca desta forma: “Se estou tirando uma foto de um tubarão-tigre e não divulgo o uso de iscas para atrai-lo na legenda ou quando questionado, então eu estou sendo desonesto. Nos termos mais básicos, se a intenção é enganar o espectador, está errado. Isso se aplica ao processamento de nossas fotos também”, ele ressalta. “Corrigir cores, por exemplo, é bom. Mas se você alterar a realidade de uma cena clonando ou adicionando elementos que não estavam lá, estará cruzando uma linha no fotojornalismo.

A veracidade nas legendas também é uma maneira útil de fiscalizar nosso trabalho. Se não estamos confortáveis em compartilhar como conseguimos a foto, talvez seja uma pista de que não fizemos a melhor escolha.”

O fotógrafo da National Geographic Brian Skerry registrou este grande tubarão-branco nadando nas águas das Ilhas Netuno, no sul da Austrália. Chumming, ou isca de tubarões com peixes, permite que os mergulhadores os vejam na natureza, mas os impactos dessa atividade a longo prazo no comportamento dos tubarões são desconhecidos

Reputação é tudo
A palavra viaja rapidamente na comunidade da fotografia da vida selvagem e práticas de campo falsas ou nocivas podem ser prontamente expostas. Atualmente, não são apenas editores e outros fotógrafos que estão à procura dessas práticas danosas. Cada vez mais, os espectadores nas mídias sociais também estão falando quando as coisas parecem suspeitas.

“Uma das coisas que digo aos jovens fotógrafos no final do dia é: nunca esqueça que sua reputação é tudo. Se você quiser usar atalhos, se estiver exposto, irá atrasar tudo em décadas”, diz Skerry. “Você tem que estar acima da censura. Você tem que fazer certo.”

“Também é responsabilidade do editor de fotos fazer perguntas”, diz Kathy Moran, editora de fotografia da National Geographic. “Cabe a nós voltar ao fotógrafo e perguntar como a imagem foi feita, pedir para ver um arquivo em RAW. Também assumimos a responsabilidade de manter a integridade.” 

Reserve um tempo para fazer parcerias com cientistas e pesquisadores para garantir que o que você está postando seja preciso”, diz Skerry. Faça a ponte entre a ciência e a fotografia para adicionar autenticidade ao que você está fazendo.

Esses princípios básicos fornecem um ponto de partida. Cabe a cada um de nós criar senso comum e compaixão em nossa prática. Podemos não ter todas as respostas e podemos cometer erros, mas podemos nos esforçar continuamente para ser empáticos e conscientes. Cabe a cada um de nós usar o poder que temos como fotógrafos da vida selvagem para agir com muito cuidado com os animais que nos presenteiam com sua presença. São apenas fotos para nós, mas para um animal selvagem, todo momento é sobre sobrevivência.”

- Releia o artigo "Como fotografar a vida selvagem eticamente", publicado em 15 de agosto de 2019 pelo Fauna News

Postado por Dimas Marques às 00:00

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