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Sexta-Feira, 18 DE Outubro DE 2019

PHOTO ANIMAL - A história por trás da foto

Detalhe de filhote nas costas da fêmea

Por Marcelo Calazans
Técnico em agropecuária, administrador de empresas e fotógrafo. Foi professor da disciplina Fotografia de Natureza pelo Senac-MS
photoanimal@faunanews.com.br

Olá para você que me acompanha aqui no Photo Animal

O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) é, sem sombra de dúvidas, uma das minhas espécies animais preferidas, tanto pela beleza como pelo papel biológico que desenvolve na natureza. O tamanduá-bandeira é um dos mais especializados predadores que existem, se alimentando quase que exclusivamente de formigas e cupins, sendo o forrageamento o comportamento mais frequentemente observado nos animais em liberdade e em cativeiro.

Esses animais procuram suas presas por meio do cheiro e podem visitar vários formigueiros em um dia (mais de 200), se alimentando de mais de 30 mil indivíduos por dia. Algumas espécies de cupins são especializadas em se proteger de ataques do tamanduá e muitos indivíduos conseguem fugir enquanto ele cava. Então, o tamanduá é um grande controlador da população das espécies as quais se alimenta e também um dispersor de nutrientes e resíduos pela terra, adubando-a.

Tenho vários registros da espécie em diversas situações, mas sempre indivíduos sozinhos, um dos comportamentos típicos da espécie. Sempre quis a oportunidade de registrar uma fêmea com filhote. E a chance surgiu em um fim de tarde de 2015, quando visitava uma área rural próxima ao aeroporto da capital do Mato Grosso do Sul. Nesse mesmo dia e local, já havia registrado animais de outras espécies, como tuiuiús, gavião-do-rabo-branco, araras e outros.

Mas o narigudo roubou a cena!

 Uma das cenas mais lindas que já tive a honra de presenciar: mamãe tamanduá e sua cria, em um fim de tarde de luz perfeita!

Dando a última “peneirada” na área antes de voltar para casa, já no fim da tarde (a famosa “golden hour”), fui agraciado pelas cenas registradas que publico aqui: uma mamãe tamanduá com seu filhote agarrado às suas costas. Parei o carro, peguei a câmera, desci correndo e atravessei uma cerca de arame atrás do bicho (aqui registro uma observação: JAMAIS FAÇA ISSO sem a autorização do proprietário do local por uma questão óbvia de segurança). Agi sem pensar, por impulso e tomado pela emoção do momento.

Não podia perder a oportunidade!

Apressei o passo até me aproximar o suficiente para realizar os registros e sem representar perigo aos animais e à minha segurança. Minha maior surpresa foi perceber que o animal permitiu essa aproximação, já que eu estava a favor do vento o que facilitaria minha detecção pelo olfato e ativaria o modo “fuga” do bicho. O tamanduá-bandeira não tem uma visão muito boa, então o olfato é um dos seus sentidos mais apurados.

Tamanduá escavando cupinzeiro, favorecendo a adubação e a aeração do solo, que são duas de suas funções ecológicas, enquanto seu filhote dorme tranquilo em suas costas

Coloco abaixo algumas informações sobre a espécie que acho interessante divulgar:

- tamanduá-bandeira é um mamífero nativo da América. Ele recebe esse nome porque sua cauda tem forma de uma bandeira;
-em alguns locais do Brasil, eles são conhecidos pelos nomes tamanduá-açu, tamanduá-cavalo, papa-formigas-gigante, urso-formigueiro-gigante, iurumi e jurumim;
- infelizmente, em alguns locais, ele já foi extinto e no Brasil é um dos animais na lista de risco de extinção. Além dele,, existem outras espécies de tamanduás no país, entretanto essa é a maior delas;
- o tamanduá-bandeira vive em campos, áreas abertas e florestas tropicais. Ele é encontrado em todos os biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal, Cerrado e Pampa;
- além do Brasil, ele é encontrado em outras partes do continente americano (Américas do Sul e Central);
- são animais solitários quando atingem a idade adulta. Não são ágeis nem agressivos, no entanto, se se sentem ameaçados, eles sentam sobre as patas traseiras e atacam com suas imensas garras;
- não são animais territorialistas e, por isso, podem caminhar durante todo o dia em busca de abrigo e alimento. Além disso, conseguem nadar;
- embora sejam grandes e pesados, suas imensas garras lhes permitem subir em árvores. Esse comportamento de defesa é fundamental para se protegerem de alguns predadores.

Curiosidades
Peso: os tamanduás-bandeiras adultos pesam entre 20 kg e 60 kg. Quando nascem, possuem cerca de 1,2 kg.

Comprimento: podem medir entre 1 m e 1,30 m (fora a cauda). Só a cauda pode atingir 1 m de comprimento. No total, o animal chega a cerca de 2 metros.

Altura: eles possuem cerca de 60 cm de altura.

Você Sabia?
A expressão “abraço de tamanduá” está relacionada com a maneira que ele ataca seus adversários. Ou seja, ele encrava suas imensas garras nas costas do animal.

Ainda que sejam animais dóceis e tranquilos, nunca se deve abraçar um tamanduá, pois para ele esse gesto significa uma afronta.

Aqui outro registro no mesmo local, 3 anos depois: a cena se repete!

Voltando ao meu primeiro registro da espécie com filhote, acrescento que me senti em perfeita comunhão e harmonia com aquela família, já que foram mais de 30 minutos de convivência e troca que só foram interrompidos pelo fim de condições adequadas de luminosidade para continuar os registros. Acompanhar cada movimento da mãe com seu filhote foi uma honra para mim. Entendi que cada passo era dado na velocidade certa, para garantir o conforto e a segurança da cria. Uma relação de mãe e filho incrível, uma demonstração de amor maternal que falta a muitos humanos.

Ainda permaneci no local mais algum tempo, vendo os dois se afastando lentamente em direção à mata ali perto, buscando abrigo para a noite que se aproximava. Nesse momento, fechei meus olhos e agradeci pelo instante que pude registrar e fazer parte.

Esse sentimento não tem preço!

Os que já passaram por isso me entenderão perfeitamente. E aos que buscam esse momento, algumas dicas:

- se aproxime bem devagar, de preferência contra o vento; 
- não faça movimentos bruscos e fique em silêncio;
- mantenha uma distância de segurança (mínimo de 10 metros) para evitar problemas;
- cuidado com a direção da luz para evitar sombreamento indesejado nas imagens;
- capriche nas composições. O cenário sempre favorece esse trabalho;
- atenção redobrada às configurações da câmera, pois as condições de luminosidade variam a cada instante.

Onde encontrar a espécie:
- matas e campos abertos;
- áreas de pasto com abundância de cupinzeiros;
- áreas alagadas e com fartura de água.

Lembre-se: JAMAIS adentre áreas partículares SEM a autorização do proprietário! Não coloque sua segurança em risco. 

 Consegui chegar a menos de 12 metros dessa família, o que permitiu um registro riquíssimo em detalhes e com a nitidez perfeita

Termino este artigo deixando uma pequena galeria de imagens da espécie. Espero que gostem!

Abraço e até nosso próximo encontro.

Postado por Dimas Marques às 00:00

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