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Quinta-Feira, 07 DE Novembro DE 2019

FAUNA E ESTRADAS-Definir áreas críticas de atropelamentos sem dados de atropelamentos

Por Júlia Beduschi
Bióloga e mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalha junto ao Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias (NERF) da mesma instituição
estradas@faunanews.com.br

A área de Ecologia de Rodovias começou com as observações da fauna atropelada nas vias. Desde essas primeiras observações, muito se progrediu em conhecimento, desenhos amostrais e abordagens analíticas. Já sabemos identificar quais são os impactos possíveis que uma rodovia pode causar no ambiente: perda de indivíduos, diminuição e fragmentação das populações, diminuição na riqueza de espécies, poluição química, sonora e luminosa, vetor de colonização de espécies exóticas, fragmentação do habitat, entre outros.

Todos esses impactos foram reconhecidos e estudados pela Ciência e, graças a esses trabalhos, alguns deles (mesmo que ainda muito poucos) puderam ser incorporados aos estudos de licenciamento ambiental. Assim, essas consequências devem ser evitadas, minimizadas ou compensadas seguindo a lógica da hierarquia da mitigação segundo a legislação. 

Nos dias de hoje, a Ciência continua evoluindo nos estudos, disponibilizando diversos modelos matemáticos, desenhos amostrais e análise de imagem mais robustas para a identificação e resolução desses impactos. A grande novidade, e que tem sido desenvolvida por diversos centros de pesquisa no mundo inteiro, inclusive no Brasil, são os modelos preditivos de atropelamentos.

E o que é isso?

São modelos que conseguem predizer, sem dados de atropelamento, onde em uma rodovia podem ocorrer ou ocorrem mais atropelamentos. Um dos métodos usados para isso são análises de imagens de satélites, sendo classificadas as variáveis da paisagem relevantes para o grupo-alvo e construídos mapas de corredores ecológicos. Por exemplo, considerando animais arborícolas espera-se que seu deslocamento ocorra pelos fragmentos de floresta, enquanto espécies de habitat campestre ocorra preferencialmente por áreas abertas. Também são incorporadas variáveis da rodovia, como a largura da pista, o número de pistas e a quantidade de veículos que trafegam que podem influenciar na probabilidade de um animal ser atropelado. Ainda podem ser adicionadas variáveis referentes às características do animal-alvo, como a velocidade de deslocamento, o tipo de deslocamento (voador, terrícola) e a resposta desse dele ao se deparar com um veículo. Juntando todas essas informações, obtemos para cada pixel da imagem a probabilidade de um animal chegar à rodovia e a ser atropelado.

Mapa de preditivo de atropelamento para uma espécie campestre fictícia

Qual é a mais notável vantagem dessa abordagem? Neste tipo de método, conseguimos identificar espacialmente quais são os lugares críticos de atropelamento sem mesmo ter os dados de atropelamento, ou seja, sem esforço de campo, menos custo de projeto e até mesmo sem ter uma estrada construída. Assim, o tempo para a tomada de decisão de onde colocar medidas de mitigação e quais tipos de medidas a serem instaladas é reduzido, sendo instaladas com um grau de certeza maior sobre a sua efetividade juntamente com o processo de construção de uma nova rodovia. Dessa forma, não precisamos esperar que milhares de animais morram atropelados para se tomar uma decisão de manejo. 

A metodologia descrita para a construção do modelo é apenas uma das diversas abordagens que estão sendo propostas. Qual é a melhor proposta ou a proposta que pode ser usada em diversos casos, ainda não sabemos.

Ainda é preciso comparar os resultados dos modelos com os resultados gerados nas amostragens de atropelamento em campo para ver o quanto se assemelham. Caso confirmada a boa predição dos modelos, será um avanço principalmente para o licenciamento ambiental de rodovias, o qual terá maior celeridade no processo, menor custo de projeto e possibilidade de planejamento da implantação das medidas de mitigação juntamente com a construção da rodovia o que também reduz custo de obra, além de ser benéfico para a fauna.

Mas para isso, é essencial que a Ciência não seja desacreditada e que os investimentos públicos e privados em pesquisa sejam mantidos e fortalecidos. O desenvolvimento do país com responsabilidade também é pensado dentro das universidades.

Postado por Dimas Marques às 15:00

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