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Segunda-Feira, 25 DE Novembro DE 2019

OS SILVESTRES E A NOSSA SAÚDE - Peixes e mariscos contaminados por óleo

Por Elisângela de Albuquerque Sobreira
Médica veterinária, mestre em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutora em Animais Selvagens pela Universidade Estadual Paulista (Unesp/Botucatu). Já foi Gerente do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Anáplois (GO), onde fundou e mantém o Centro Voluntário de Reabilitação de Animais Selvagens (CEVAS)
nossasaude@faunanews.com.br

Acidentes são uma conseqüência inevitável do transporte mundial de petróleo e derivados de petróleo refinado por via marítima. O número de grandes derramamentos que ocorrem a cada ano diminuiu, mas os derramamentos e descargas operacionais de navios-tanque, no entanto, constituem uma entrada significativa de petróleo no ambiente marinho. A rápida absorção de óleo e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP) por peixes e mariscos expostos representa uma potencial ameaça também para nós, consumidores humanos de peixes e mariscos, além do mercado desses animais.

Estudos relatam a presença generalizada de constituintes do petróleo bruto no ambiente biofísico das comunidades impactadas. Sabe-se que a presença e a quantidade desses constituintes são capazes de exercer efeitos adversos agudos e em longo prazo para a nossa saúde. Cancerígenos conhecidos, como benzeno e hidrocarboneto aromático policíclico (HAP), foram encontrados, respectivamente, nas águas superficiais e no solo das comunidades afetadas. Como outros cancerígenos, eles não têm níveis seguros, pois até algumas moléculas podem ser genotóxicas.

A atividade desses cancerígenos conhecidos provavelmente explica a carcinogenicidade relatada em diversos estudos em animais. A diferença na concentração de HAP no ar também foi apontada como uma razão para a maior prevalência de certos tipos de câncer.

O derramamento de óleo bruto pode causar um aumento de 45% no nível normal de radiação.  Esse é outro perigo que pode se manifestar com o aumento da prevalência de certos tipos de câncer anos após o derramamento de óleo. A contaminação por radiação causada pelo derramamento de petróleo é, geralmente, tão disseminada que a água superficial e as culturas cultivadas no ambiente impactado também são contaminadas além do limite máximo permitido.

Marisco contaminado com óleo na recente crise nas praias do Nordeste. Contaminação verificada pela Universidade Federa da BahiaA ingestão, o contato dérmico e a inalação dos outros constituintes do petróleo derramado também têm implicações agudas e a longo prazo para saúde. Embora as manifestações agudas das exposições sejam freqüentemente leves e transitórias, exposições graves em criança de até dois anos podem resultar em insuficiência renal aguda ou mesmo hepatoxicidade (danos no fígado) e toxidade do sangue. Podem também ocorrer inflamação nos olhos e diarréia devido à ingestão de peixes mortos pelo derramamento.

Os derramamentos de petróleo bruto também resultam na contaminação maciça de água, ar e alimentos com hidrocarbonetos e metais vestigiais.  Isso pode ter efeitos graves nos seres humanos de uma maneira que muitas vezes não é reconhecida.  De acordo com as pesquisas, as culturas de alimentos e água na superfície contém concentrações detectáveis de ferro, zinco, cobre, cromo, manganês, chumbo, níquel, cádmio e hidrocarbonetos.  A presença de ferro, zinco, cobre, cromo e manganês em itens de água e alimentos pode ser considerada inócua, pois são essenciais no metabolismo do corpo e, portanto, poderia desempenhar um papel no atendimento aos requisitos diários recomendados. Já o chumbo, o níquel, o cádmio e os hidrocarbonetos são potencialmente tóxicos para a saúde humana.

As concentrações de chumbo, níquel e cádmio potencialmente tóxicos foram baixas na água de superfície, mas mostraram algum nível de bioacumulação nas culturas alimentares  (mariscos, por exemplo). Com base em análises dose-resposta, estima-se que um acúmulo de 25μg/kg de peso corporal de chumbo no corpo resulte em uma diminuição de pelo menos três pontos de QI  (quociente de  inteligência) em crianças e um aumento na pressão arterial em adultos.

As concentrações de cádmio nas águas e culturas alimentares expõem as pessoas afetadas a 0,2 mg de cádmio por dia, mais do que a dose de referência de 0,03 mg/dia para um adulto de 60 kg. O cádmio é considerado uma toxina cumulativa porque o corpo humano tem capacidade de excretar apenas 0,001% da quantidade ingerida em um dia. Embora seja considerado provavelmente carcinogênico, a toxicidade crônica afeta os rins, os ossos e o fígado, e em mulheres na pós-menopausa resulta em osteoporose, disfunção renal e anemia.

O petróleo bruto e outros óleos à base de petróleo são misturas complexas de produtos químicos.  Portanto, desses produtos químicos, os mais importantes a considerar ao avaliar a segurança de frutos do mar (peixes e mariscos) após um derramamento de óleo são hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP) porque:

- os HAPs têm maior probabilidade de se acumularem nos tecidos das espécies de frutos do mar; e
- se os níveis de HAP nos frutos do mar forem altos o suficiente, eles podem representar uma ameaça à saúde das pessoas que comem frutos do mar com frequência.

Polvo contaminado com óleoDevemos observar que, mesmo em níveis muito baixos, os PAHs e outros produtos químicos no óleo podem fazer com que os frutos do mar tenham um cheiro ou sabor incomum. Isso é chamado de “contaminação”.  A contaminação não significa necessariamente que peixes ou mariscos não são seguros para comer, mas frutos do mar contaminados não podem ser vendidos no comércio interestadual.

Para prevenir os prejuízos à saúde humana, o monitoramento de peixes e moluscos deverá ser contínuo em áreas onde os níveis de HAP são altos ou foram encontrados contaminantes, até que os níveis caiam para níveis seguros e os frutos do mar não estejam mais contaminados.

Postado por Dimas Marques às 00:10

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