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Quarta-Feira, 04 DE Dezembro DE 2019

UNIVERSO CETAS - Ações pós-soltura: o exemplo de mobilização de uma comunidade

Por Daniel Nogueira
Biólogo, especialista em Ecoturismo e analista ambiental do Ibama. É o responsável pelo Centro de Triagem de Animais Silvestre (Cetas) do Ibama localizado em Lorena (SP)
universocetas@faunanews.com.br

As ações relacionadas aos centros de triagem de animais silvestres (Cetas), como recepção, triagem e destinação de animais silvestres, muitas vezes estão ligadas a eventos e iniciativas não necessariamente ocorridas nas dependências dessas instituições e, principalmente, realizadas por agentes que não necessariamente cumprem seus horários nos Cetas.

Como já abordado, os parceiros são imprescindíveis para o encadeamento do manejo de animais silvestres. Em complementação ao abordado no artigo do início do mês de setembro de 2019, queria mencionar neste momento uma proposta de tratamento pós-soltura, incluindo monitoramento de fauna, realizados na Área de Soltura de Animais Silvestres (ASA) Fazenda Nova Gokula, localizado em Pindamonhangaba (SP). 

A tarefa de receber animais para reintegração à natureza é realizada desde 2008 por esta área de soltura. A minha intenção é apresentar o trabalho que é realizado pelas pessoas que entenderam a importância, abraçaram a ideia e propuseram um esforço conjunto com foco naquilo que se entende como pós-soltura (em especial o monitoramento pós-soltura), mas que está mostrando resultados que vão muito além dos ganhos técnicos de avaliação do sucesso de soltura dos animais. O meu objetivo neste relato não é apresentar uma receita pronta para o “pós-soltura” do Cetas, mas mostrar uma iniciativa que pode ser adaptada e/ou replicada em outras localidades e que estão intimamente relacionadas ao trabalho do centro de triagem.

Assim que foi formalmente constituída como área de soltura, a ASA Nova Gokula, naquela época denominada Área de Soltura e Monitoramento de Fauna (ASMF Nova Gokula), até em virtude da denominação inicial, já apresentou no seu projeto um programa de monitoramento de pós-soltura. Os critérios iniciais apresentavam uma característica interessante: o monitoramento previa uma modalidade formal, com a atuação de técnicos e metodologia de monitoramento com definição de áreas de abrangência e formas de atuação dos responsáveis pelo monitoramento. Também foi estabelecido, logo no início, uma equipe técnica coordenada por um biólogo como responsável técnico. 

Contudo, a ideia incluía uma outra modalidade de acompanhamento pós-soltura que era chamada de “monitoramento informal”. A Fazenda Nova Gokula é uma comunidade religiosa localizada em uma propriedade na zona rural do município de Pindamonhangaba (SP). Desde o início, toda a comunidade abraçou a ideia de verificar como estavam indo os novos “inquilinos” da fazenda.

Durante todo esse período, até agora, já se vão mais de 10 anos e este modelo de monitoramento formal e informal, mais que gerar dados interessantes relacionados à soltura, foi criando, no local e na região, uma ideia cristalizada daquilo que se realiza; uma cultura local, concretizando o conceito de área de soltura e todos os atributos relacionados a esta ação. 

Caminhemos agora para o presente e para a atual situação do trabalho realizado pela pós-soltura.

Hoje, a Área de Soltura Fazenda Nova Gokula continua com o modelo de monitoramentos formal e informal.

O monitoramento formal é estruturado com método ponto fixo, com pelo menos 2 horas de observação no ponto estabelecido. Também se usa a técnica por transecto, com mapa do local de busca e pontos georreferenciados de avistamento. A ASA Nova Gokula possui uma equipe de monitoramento formada por mais de seis pessoas que, em forma de revezamento, realizam as campanhas de avistamentos e registros de fauna. O plano da equipe é poder contar, em breve, com o a ajuda de registros de imagens fixas e móveis por câmeras trap.

O monitoramento é fundamental para avaliar o sucesso das solturas e realizar correções necessárias

Os dados coletados são inseridos em planilhas e compõem relatórios que, além de orientarem a recepção de animais na área de soltura, são encaminhados aos dois órgãos nos quais a área de soltura tem cadastro: o Ibama de São Paulo e o Departamento de Fauna da Subsecretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Contudo, não menos importante e de grande capacidade de extrapolar os objetivos da própria função admitida, foi implantado o que se conhece na comunidade da Fazenda Nova Gokula como o programa de monitoramento informal. Não é exagero dizer que toda a comunidade, moradores da fazenda, com aproximadamente cem pessoas ou 40 famílias, se envolvem na observação e nos registros dos movimentos dos “novos moradores” da propriedade assim que eles chegam. Dados e fotos são coletados e tudo é enviado para a equipe técnica incluir nos relatórios formais.

No entanto, muito do que se observa e se percebe pelos moradores vem em forma de impressões e conceituações não técnicas, mas profundamente válidas, principalmente relacionadas ao crescimentos de populações ou até o restabelecimento de algumas (em especial de avifauna) e também de informações sobre a relação que os animais livres (o que é importante relembrar) estabelecem com as pessoas e visitantes, o que tem sido mutualmente benéfico. Contudo, a contribuição deste monitoramento informal está extrapolando os limites da fazenda e em abrangência e importância. Nos últimos anos, na comunidade do entorno do bairro rural no qual a propriedade se insere, o Ribeirão Grande, se formou uma rede de pessoas, constantemente conectadas, denominados Protetores do Meio Ambiente e cuja função é ajudar com quaisquer informações quanto ao aparecimento de aves anilhadas soltas na área de soltura. Os protetores do meio ambiente inclusive realizam eventos ligados à fauna silvestre, atividades de educação ambiental em escolas e estão sempre alertas quanto a situação de crimes ambientais que possam ocorrer na região do entorno da fazenda.

O grupo, inclusive, estabeleceu para o bairro a ambiciosa meta da “gaiola zero”. Seus integrantes defendem o conceito “silvestre não é pet”, fazendo menção a intolerância quanto a manutenção de animais silvestres ilegais no bairro. É uma situação comum quando novos moradores, ao se depararem com a abundância de avifauna no local, recebem a orientação, (ou se preferirem, o aviso imperativo), por parte da comunidade engajada, que não os devem aprisionar em hipótese nenhuma.
Todos irmanados e, de forma totalmente voluntária, contribuindo para o sucesso do retorno dos animais à liberdade. 

Postado por Dimas Marques às 16:30

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