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Quinta-Feira, 06 DE Fevereiro DE 2020

FAUNA E ESTRADAS - Carros na beira da praia não combinam

Individuo de Ocyopode quadrata (maria-farinha)

Por Júlia Beduschi
Bióloga e mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalha junto ao Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias (NERF) da mesma instituição
estradas@faunanews.com.br

Estamos na temporada de verão e não tem coisa melhor do que curtir os dias quentes na beira da praia. Mas o que não combina com a praia são os carros nela! 
A praia é uma zona de transição (ecótono) do ambiente marinho para o ambiente continental, ou seja, ela recebe influências físicas e químicas dessas duas zonas contrastantes e, por isso, possui uma diversidade diferenciada facilmente identificada pelas pessoas.

Tanto as plantas como os animais que vivem nesse ecótono têm adaptações fisiológicas para suportarem as condições extremas que ele proporciona, como o sedimento pobre em nutrientes, a grande quantidade de sal marinho, os fortes ventos, as altas e baixas da maré e a alta incidência solar. Mas por esses organismos terem adaptações fisiológicas diferenciadas, o ambiente de vida deles é apenas nessa faixa costeira.

Cada vez mais a pressão antrópica está aumentando sobre esses ambientes, com a faixa de areia diminuindo para dar lugar a construções, estradas e calçadões. O tempo de incidência solar está mais curto com construções de arranha-céus na beira da praia e o fluxo de veículos tem aumentado na areia, trazendo alguns impactos que conhecemos nas estradas!

Um recente artigo científico realizado por pesquisadores brasileiros demonstrou que os atropelamentos de fauna também estão ocorrendo na beira da praia. O trabalho estuda os caranguejos conhecidos como maria-farinha (Ocypode quadrata). Como principais resultados, encontraram 47 caranguejos atropelados num trecho de aproximadamente 10 km em 12 campanhas de amostragem. Isso significa 0,39 indivíduos encontrados atropelados por quilômetro por dia de amostragem.

Esse número parece baixo, mas considerando que conseguir detectar um animal pequeno, com a mesma coloração do substrato, numa área não muito bem delimitada é bem difícil, deve ter morrido um número bem maior de animais do que o encontrado. Ainda, 76% dos animais achados foram registrados em apenas um único dia de alto fluxo de veículos, Os autores especulam, baseado na densidade de indivíduos conhecida na literatura, que apenas neste dia pode ter morrido 2,5% da população de caranguejos do local!

Neste verão, tenha mais respeito pelos organismos que habitam os ambientes costeiros. Definitivamente, praia e carros não combinam!

- Releia o artigo “Resolução para 2020: não leve seu carro à praia!”, publicado na coluna FAUNA E ESTRADAS em 25 de dezembro de 2019

Postado por Dimas Marques às 18:00

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