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Quinta-Feira, 27 DE Fevereiro DE 2020

FAUNA E ESTRADAS - Gambá: muito atropelado e pouco amado

As quatro espécies de gambás do Brasil

Por Gabriela Schuck de Oliveira
Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestranda junto ao Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias (NERF) da mesma instituição
estradas@faunanews.com.br

Os gambás são marsupiais, animais que possuem um marsúpio (bolsa) externo para finalizar o desenvolvimento do embrião, como os cangurus da Austrália. Porém, diferentemente dos cangurus, eles não são adorados e simpáticos. Na verdade, são mal interpretados e odiados. 

Acredito que o desgosto das pessoas com essas espécies começa devido ao erro de nomenclatura e confusão de características. Possivelmente, devido ao desenho animado do universo Looney Tunes, no qual existe um personagem é um cangambá, espécie muito semelhante ao nosso zorrilho e totalmente diferente dos nossos gambás. Cangambás, zorrilhos e jaratatacas são carnívoros que possuem uma glândula próxima ao ânus que exalam um jato de odor extremamente fétido e que pode chegar até três metros de distância. Devido a essa característica, são muito temidos pelas pessoas.

Entretanto, quem acabou levando a fama ruim foi o nosso marsupial gambá, que não possui nenhum jato, apenas um odor desagradável como qualquer animal silvestre. Além desse erro, as pessoas também acham que gambás são ratos, provavelmente devido a sua aparência não tão apreciada como as dos coalas, cangurus e outros marsupiais mais conhecidos mundialmente. 

Na imagem a esquerda são os personagens gata Penelope Pussycat e o Pepe Le Gambá (causador da confusão por conta do nome). Já na imagem da direita, um exemplo de zorrilho (Conepatus amazonicus), espécie semelhante do personagem da Looney Tunes e que não tem nenhuma relação com gambás

Além desse desgosto injusto, os gambás são uns dos animais mais atropelados nas rodovias. Conforme a base de dados publicada em 2018, que compila 21.513 registros de vertebrados silvestres atropelados no Brasil, o gênero Didelphis lidera o número de atropelamentos com 2.204 registros, sendo 1.549 apenas da espécie gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris). Lembrando que esses números são apenas o que foi observado e compilado apenas em um trabalho. O número de atropelamentos é muito maior do que esse.

Gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) é uma espécie frequentemente atropelada nas rodovias do RS

Eles são abundantes e adaptados a áreas urbanas, por isso são muito vistos em rodovias. Outra característica é que quando a fêmea está com filhotes em seu marsúpio ou então os carregando nas costas após a finalização da gestação, o seu andar se torna dificultoso, tornando-a mais suscetível aos atropelamentos. 

Os filhotes ficam no marsúpio por aproximadamente 70 dias, após esse período são carregados no dorso (vídeo) até conseguirem viver completamente sozinhos. 

Em resumo, gambás não são roedores, nem carnívoros e também não soltam jatos longos de liquido fétido. Na verdade, o principal reconhecimento deles deveria ser a sua importante função ecológica, pois são controladores de carrapatos, escorpiões, serpentes (são imunes a diversas peçonhas), dispersores de sementes e polinizadores de flores. Apesar de não serem comumente espécies-alvo de conservação, é importante conservá-los. Repassar o conhecimento sobre a espécie irá ajudar a desfazer a sua má fama e diminuir as mortes intencionais que as pessoas realizam.

Sempre é bom lembrar que maltratar e matar animais silvestres são crimes ambientais. Esse é um grupo muito injustiçado e perseguido no Brasil que deveria ser tão amado como qualquer outro marsupial bandeira.

Ilustração dMeme? popular nas redes sociais satirizando a preferência dos brasileiros por marsupiais australianos

Postado por Dimas Marques às 15:30

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